Para quem diz que fazer grandes viagens num automóvel elétrico é um problema, certamente nunca fez quilómetros ao volante de um Ford Mustang Mach-e. De Sintra ao concelho de Sousel, no Alentejo, gastámos menos de meia carga de bateria. Quase 200 km e pouco mais de 40% de energia gasta.
A autonomia - cerca de 400 km úteis - chega e sobra para não ser um problema. Desde logo, este é um dos muitos pontos positivos que o Mustang Mach-e oferece. Porém, está longe, muito longe de ser o único.
Tive oportunidade de o conduzir durante três dias e as impressões foram as melhores. É claro que tinha tido conhecimento de várias experiências positivas de quem já tinha domado o 'cavalo selvagem' amigo do ambiente, mas ver com os próprios olhos e sentir o pulso ao Mustang elétrico é totalmente diferente - para melhor. Até porque, aquando do seu lançamento, confesso que estranhei um dos ícones da indústria automóvel ter-se tornado totalmente movido a eletricidade. A ausência do barulho do motor parecia ser algo que não combinava com o nome Mustang, mas não posso dizer o mesmo nesta altura.
Os tempos mudam e os ícones também se adaptam, não só no tipo de motor mais ecológico, como na formato e na imagem. Este Mustang Mach-e é um SUV, mas o seu design moderno consegue impressionar qualquer um à primeira vista. Porém, na minha opinião, o mais importante é que a Ford, além de um visual arrojado, conseguiu manter a identidade possante de um Mustang.
Ao volante
Neste capítulo é quase impossível encontrar um defeito ao Mustang Mach-e. A sua tração integral 4x4 torna este SUV um veículo de controlo mais fácil, mais seguro e mais estável. Os 351 cv derivados dos dois motores que o equipam são mais do que suficientes para uma condução bastante animada. O binário instantâneo faz-nos colocar a cabeça colada à cabeceira do banco se pisarmos com toda a vontade o acelerador. Um comportamento dinâmico exemplar, uma aceleração brutal, comportamento em curva irrepreensível. A travagem é tão eficiente que, por vezes, chega a ser difícil de controlar. Um pequeno toque e o Mustang Mach-e já está a travar um pouco mais do que aquilo que queremos.
Apesar das suas dimensões e de pesar mais de duas toneladas, estas são características que não influenciam negativamente o comportamento do elétrico da Ford. Pelo contrário, acabam por oferecer o conforto e o espaço de um veículo familiar. O melhor de dois mundos? Talvez. Espaço não falta, habitabilidade também não e é desta forma que entramos para as descrições do habitáculo deste Mustang Mach-e.
Interior
Logo no simples ato de entrar, há que destacar o facto de não existir o habitual puxador. A função de abrir a porta está entregue a um botão e um pouco mais acima estão visíveis vários números que oferecem a possibilidade de colocar um código para que só o condutor possa ser capaz de entrar no Mustang Mach-e.
Já no interior, a primeira coisa para onde se olha é, inevitavelmente, o ecrã multimédia, que mais parece um tablet XXL. São 15,5″ dispostas na vertical e muita informação à disposição. Acima do volante temos mais um ecrã, o painel de instrumentos (10,2"), mas que é parco em informações. Diz-nos o modo de condução em que estamos, a velocidade, a autonomia, os quilómetros e pouco mais. Gosto sempre da máxima que menos é mais, mas neste caso a Ford poderia ter colocado mesmo um pouco mais de informação no painel de instrumentos, até para não relegar quase todas as funções para o enorme ecrã colocado ao centro.
Tecnologia e assistências de condução não faltam - controlo automático de velocidade adaptativo (ACC), radar e câmara de assistência na pré-colisão, aviso de colisão dianteira, assistência dinâmica à travagem (DBS), sistema de travagem de emergência (AEB) ou câmara e sensor de marcha atrás - tal como todos os pormenores para nos sentirmos confortáveis, desde os bancos em pele, ao volante em couro regulável em altura e profundidade. Além de proporcionar uma posição de condução boa ao condutor, o Mustang Mach-e não deixa qualquer ocupante com pouco espaço ou desconfortável.
Porém, como nem tudo é perfeito, o tempo de carregamento numa tomada doméstica é quase... impraticável. Com uma potência de 2,3 kW, o Mustang demora um dia para carregar metade (!) da energia da sua bateria. Porém, se tiver à disposição um carregador de 7,4 kWh, a bateria pode recarregar por completo em 13 horas.
Fora de casa, a coisa muda de figura e os números são bem diferentes. Em corrente AC à velocidade máxima de 11 kW, a bateria de 88 kWh de capacidade carrega totalmente em cerca de oito horas. Já em corrente contínua (DC), a uma velocidade de 150 kW, são precisos apenas 45 minutos para carregar 80% da bateria.
Antes de passarmos à ficha técnica e principais pontos deste ensaio, importa dizer que fechei os três dias com um consumo médio de 20.0 kWh, números bastante razoáveis para um cavalo que, apesar de elétrico, continua selvagem.
ESPECIFICAÇÕES TECNICAS
Ford Mustang Mach-e
MOTOR
Bateria | Iões de lítio, 98,8 kWh (88 kWh úteis) |
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Motor | Dois motores elétricos (um maior à frente e um mais pequeno atrás) |
Potência | 351 cv |
Binário | 580 Nm |
TRANSMISSÃO
Tração | 4x4 |
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Caixa de velocidades | Caixa automática (uma velocidade) |
CHASSIS
Suspensão | FR: MacPherson; TR: Multilink |
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Travões | FR: Discos; TR: Discos |
Direção | Assistência eletro-hidraulica |
DIMENSÕES E CAPACIDADES
Comp. x Larg. x Alt. | 4710 mm x 1880 mm x 1590 mm |
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Distância entre eixos | 2980 mm |
Capacidade da mala | 401 l +100 l à frente |
Rodas | FR: 225/55 R19; TR: 225/55 R19 |
Peso | 2257 kg |
PRESTAÇÕES E CONSUMOS
Velocidade máxima | 180 km/h (limitada) |
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0-100 km/h | 7s |
Consumo misto | 18,7 kWh/100 km |
Autonomia | 400 km |
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ANÁLISE
Se tivesse de aconselhar um automóvel elétrico, não pensaria duas vezes em sugerir o Mustang Mach-e. Do design, ao conforto, à habitabilidade, ao espaço disponível para uma família, ao comportamento em estrada, tudo me deixou satisfeito. É certo que necessita de um carregador de, pelo menos, 7,4 kWh de potência, mas se o tiver, arrisco-me a dizer que roça a perfeição
- Design exterior e interior
- Autonomia
- Espaço e habitabilidade
- Tempo de carregamento (tomada doméstica)
- Painel de instrumentos com pouca informação