Líbia: Ataques contra civis podem implicar crimes de guerra
A Alta Representante da União Europeia (UE) para a Política Externa alertou hoje que os ataques contra áreas residenciais muito povoadas, como sucedeu domingo no sul da Líbia, podem constituir um crime de guerra.
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"Ataque indiscriminado contra áreas residenciais densamente povoadas podem constituir crimes de guerra e devem terminar imediatamente", indicou em comunicado uma porta-voz de Federica Mogherini, numa óbvia alusão ao 'raide' aéreo da aviação do marechal Khalifa Haftar.
O ataque aéreo de domingo que atingiu a cidade de Murzuq, sul da Líbia, provocou pelo menos 42 mortos e dezenas de feridos, segundo um responsável local. Outras fontes, citadas pela agência noticiosa Efe, indicaram cerca de 20 mortos e 35 feridos.
O ataque "tirou a vida de civis no sudoeste da Líbia, uma região que está a pagar um elevado preço pela incapacidade de as partes em conflito porem um termo à crise", considerou.
A porta-voz reconheceu que Mogherini assinalou em outras ocasiões que "quem cometer atos de guerra e não respeitar a lei humanitária internacional deve comparecer perante a justiça e ser julgado".
O Governo de Acordo Nacional (GAN), com sede em Tripoli e reconhecido pela ONU, confirmou em comunicado na sua página Facebook um 'raide' aéreo em Murzuq que provocou "dezenas de mortos e feridos entre os civis". O GAN responsabilizou as forças rivais do marechal Khalifa Haftar por este ataque.
Após a queda em 2011 do regime de Muammar Kadhafi após uma revolta e intervenção militar externa, em particular da França e Reino Unido, a Líbia vive uma situação de violência e caos, com a proliferação de diversas milícias armadas.
O marechal Haftar, um dos mais poderosos chefes militares do país e cujas tropas controlam a maior parte da Líbia e a totalidade das jazidas petrolíferas, desencadeou em 04 de abril uma ofensiva para tentar conquistar a capital Tripoli, em plena visita oficial do secretário-geral da ONU, António Guterres, numa clara mensagem aos responsáveis internacionais.
Desde o início desta operação militar já foram mortas mais de 1.000 pessoas, entre combatentes e civis, pelo menos 5.000 ficaram feridas e um milhão de líbios foi forçado a abandonar a sua casa, tornando-se deslocados internos.
A Líbia possui atualmente dois governos, o do leste tutelado por Haftar e apoiado militarmente pelo Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, França e Rússia, e o executivo de Fayez al-Sarraj instalado em Tripoli e apoiado pela ONU.
No domingo, a Organização líbia de Solidariedade de Direitos Humanos divulgou o seu último relatório em que revela que no primeiro semestre de 2019 foram registados na Líbia pelo menos 321 assassínios e 424 ataques violentos.
O estudo, que analisa as 13 principais cidades do país, assinala que a quase totalidade das vítimas foram civis, onde se incluem 28% alvo de sequestros e 27% de detenções arbitrárias.
O mês de junho é apontado como o mais violento, com 135 pessoas assassinadas (32% do total), enquanto a cidade com maior taxa de criminalidade foi Bengazi (capital do leste da Líbia) com 60 homicídios, seguida de Sebha (sul) com 55 e Sebratha (oeste) com 43.

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