De acordo com aquela instituição académica do Departamento de Defesa do Governo norte-americano, que estuda assuntos relacionados com a segurança em África, esta "recuperação dos níveis de violência" em Moçambique "reflete a estratégia" do grupo ASWJ -- afiliado do Estado Islâmico e que opera na província de Cabo Delgado - de "alargar o conflito, deslocando-se para o interior e para áreas mais rurais".
"Isto está a causar uma extensão excessiva das forças moçambicanas e ruandesas, que operam sem forças da SADC [comunidade de países da África austral] desde meados de 2024. As queixas subjacentes na região de Cabo Delgado continuam por resolver, alimentando o recrutamento de militantes islamistas, especialmente entre os jovens", alerta-se no estudo.
O ACSS acrescenta que se verificou "um crescimento acentuado da violência contra civis" na região norte de Moçambique no ano passado.
"Os 122 incidentes contra civis representaram 52% do total de 236 eventos violentos em 2024", refere a instituição no estudo, que aborda a ameaça terrorista que afeta sobretudo a província de Cabo Delgado, norte de Moçambique.
Reconhece igualmente que a atividade destes grupos islamistas que operam em Moçambique "sempre se caracterizou pela sua elevada taxa de violência contra civis" e que os 31% do total de mortes de 2024 resultantes da violência contra civis "são superiores aos de qualquer outro grupo de militantes islamistas em África".
O ACSS aponta ainda que cerca de 578 mil pessoas que foram deslocadas pela violência destes grupos armados "ainda não regressaram às suas casas".
Desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, rica em gás, enfrenta uma rebelião armada com ataques reclamados por movimentos associados ao grupo extremista Estado Islâmico.
O Governo moçambicano confirmou em 25 de fevereiro a ocorrência de alguns "ataques esporádicos" de grupos rebeldes na província de Cabo Delgado, assegurando que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) continuam no terreno para garantir segurança às populações.
"Estão a ocorrer ataques esporádicos, mas a indicação que temos é que as Forças de Defesa e Segurança [FDS] estão a fazer devidamente o seu trabalho e, com certeza, o que acontece é que [os supostos terroristas] dividem-se em grupos, criam outros mecanismos de assustar e aterrorizar as populações", disse o porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, respondendo a uma pergunta de jornalistas sobre a situação atual na província de Cabo Delgado, norte do país.
O estudo da ACSS estima ainda que se registaram em 2024 pelo menos 18.900 mortes "ligadas à violência militante islamista em África".
"Um declínio acentuado nas mortes envolvendo o Al Shabaab na Somália colocou o total continental abaixo dos níveis recorde de 2023 (23.000 mortes). No entanto, o número total médio anual de mortes nos últimos três anos ainda foi mais de um terço superior ao período de 2019-2021", assinala a instituição.
O Sahel, aponta igualmente, "continuou a ser o teatro de operações mais letal do continente pelo quarto ano consecutivo", com 55% do total de vítimas mortais, numa estimativa de "10.400 mortes ligadas à violência militante islamista", sendo a região também "responsável pela maior prevalência de violência contra civis".
"A região é responsável por 67% (1.840) destas mortes de civis no continente. A região da Bacia do Lago Chade ficou em segundo lugar, compreendendo 24% (670) dessas mortes", lê-se ainda.
Apenas três zonas de conflito concentraram 98% das mortes relatadas ligadas à violência por militantes islâmicos no continente africano, casos do Sahel (55%), Somália (24%) e Bacia do Lago Chade (19%).
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