"Os detidos são torturados e obrigados a dizer coisas que não fizeram para que fiquem registadas", disse à agência de notícias EFE o advogado Nicolas Tiangaye.
E acrescentou: "Estamos a assistir a uma grave violação dos direitos humanos e da soberania do nosso país (...). Os mercenários russos estão a transformar o OCRB num campo de concentração onde torturam os nossos compatriotas e os privam do direito de serem assistidos por um advogado ou um médico, em violação da lei".
Numa conferência de imprensa hoje em Bangui, capital da RCA, a advogada Arlette Sombo Dibele também denunciou a intervenção do grupo Wagner nos processos judiciais do país.
"O que está a acontecer é uma violação da lei e do direito à defesa", observou.
A advogada centro-africana denunciou ainda que o grupo Wagner impede os seus clientes, detidos no OCRB, de receberem alimentos e que os familiares que tentam levar-lhes comida são "torturados e presos durante duas horas".
"A tortura é o 'modus operandi' deles (...). É um verdadeiro campo de concentração aquilo a que estamos a assistir", disse Arlette Dibele à EFE.
Contactado pela EFE, o procurador-geral da República Centro-Africana, Benoit Narcisse Foukpio, disse tratar-se de "simples acusações".
"Estamos a fazer o nosso trabalho no estrito respeito pela lei, e os advogados são advogados, terão sempre algo a dizer. Quanto às perguntas dos russos, não vou responder porque se trata de uma questão política: em vez de falarem de direito, estão a falar de política", afirmou.
A conferência de imprensa do grupo de advogados foi convocada para denunciar as condições em que estão deditos no OCRB dois irmãos do líder político da oposição Henri-Marie Dondra, um possível candidato às eleições presidenciais da RCA previstas para o final de 2025.
Christian e Eusèbe Dondra são suspeitos de terem tentado assassinar certas personalidades públicas com o objetivo de derrubar a ordem constitucional do país, segundo um comunicado da procuradoria de Bangui divulgado na sexta-feira.
No entanto, Nicolas Tiangaye, advogado e representante de um dos irmãos, queixou-se de que estes não estão a ter acesso à sua defesa legal.
"A justiça é uma questão de soberania do Estado. Então, porquê e em nome de que direito é que os mercenários de Wagner nos estão a proibir o acesso aos nossos clientes", questionou Nicolas Tiangaye.
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