Luís Montenegro proferiu ontem, 24 de dezembro, a sua primeira mensagem de Natal enquanto primeiro-ministro, num discurso em que defendeu 2024 como um ano "de viragem e de mudança" e no qual colocou como prioridades para o futuro a promoção de uma "imigração regulada" e o combate à criminalidade. Estas palavras não agradaram aos partidos da oposição, que consideraram que o discurso foge à "realidade" do país e acusaram o Governo de "cedência retórica" à extrema-direita.
O que disse Montenegro?
No seu discurso, o primeiro-ministro assegurou que a "nova política de baixar os impostos e valorizar os salários e as pensões" está a ser realizada "com rigor e equilíbrio orçamental", apontando Portugal como "um referencial de estabilidade e um país de oportunidades" num "mundo em convulsão" e "numa Europa apreensiva com a estagnação da Alemanha e o défice e o endividamento da França".
Numa mensagem gravada na residência oficial, em São Bento, e transmitida pela RTP, Montenegro considerou que o Governo PSD/CDS-PP, que lidera desde 02 de abril, "trouxe novas prioridades e novas opções".
"Não viemos para olhar ou criticar o passado. Viemos para cuidar do presente e construir o futuro", afirmou.
Nas prioridades para o futuro, incluiu a promoção de uma "imigração regulada" e o combate à criminalidade - sem ligar os dois temas -, a par do reforço dos serviços de saúde, educação, transportes e da execução do "maior investimento em habitação pública desde os anos 90".
"Vamos promover uma imigração regulada para acolher com dignidade e humanismo aqueles que escolherem viver e trabalhar no nosso país", referiu Montenegro.
Mais à frente, o primeiro-ministro prometeu o combate à "criminalidade económica, o tráfico de droga e a criminalidade violenta".
"Somos um dos países mais seguros do mundo, mas temos de salvaguardar esse ativo para não o perdermos", reiterou.
O chefe do Governo defendeu que "Portugal tem tudo para vencer e criar mais riqueza", determinante para conseguir "juntar os pais e os avós com os filhos e netos de Portugal em Portugal" e para "continuar a salvar o Estado Social, cumprindo a essência da democracia e da justiça, que é a igualdade de oportunidades".
É com sentido de união que desejo a todos um Feliz Natal e um próspero 2025! O Governo acredita na capacidade de superação de todos vós, no vosso espírito de solidariedade e tolerância. Trabalhamos — juntos — para não deixar ninguém para trás. pic.twitter.com/UcQ2ZanNTw
— Luís Montenegro (@LMontenegropm) December 25, 2024
E os partidos?
Mensagem "contrasta com a realidade"
Seguiram-se as reações e as críticas, da Esquerda à Direita.
A líder parlamentar do PS afirmou que a mensagem de Natal do primeiro-ministro "contrasta com a realidade", com as medidas tomadas pelo Governo que "cavalgam uma perceção de insegurança" e com a opinião do Presidente da República, que num artigo no Jornal de Notícias defendeu ser necessário "promover a igualdade e afastar as exclusões"
"Não vale a pena traçar um quadro eleitoralista de um país que não é o que os portugueses conhecem", acusou Alexandra Leitão, numa reação a partir da sede nacional do PS, no Largo do Rato, em Lisboa "Foi a mensagem do Presidente da República com a qual o PS não podia estar mais de acordo", destacou.
Pelo contrário, acusou, o Governo PSD/CDS-PP "cavalga uma perceção de insegurança que não é real e aproveita para entrar numa deriva de populismo totalitário".
Governo devia "pedir desculpas ao país"
Já o BE trouxe à tona a operação policial do passado dia 19 no Martim Moniz, defendendo que o Governo devia "pedir desculpas ao país" e reconhecer que foi "uma ação politicamente motivada".
"O Governo reconhece que Portugal é um país seguro, no entanto, tratar as pessoas com dignidade e humanismo não é encostá-las à parede como vimos nas operações dos últimos dias", afirmou Aliyah Bhikha, da comissão política do BE, em reação à mensagem de Montenegro.
"Entramos em 2024 e saímos de 2024 com uma crise tanto na habitação como na saúde cada vez mais agravada. O Bloco de Esquerda tem apresentado propostas diversas e sabemos que faria um caminho diferente do que tem sido feito", acrescentou.
"Mensagem fala de um país ao contrário daquele em que vivemos"
Por sua vez, o PCP considerou hoje que o primeiro-ministro descreveu "um país ao contrário" do verdadeiro e que "não cola com a realidade e com as dificuldades de milhões de portugueses".
"A mensagem do senhor primeiro-ministro é uma mensagem que fala de um país ao contrário daquele em que nós vivemos. É uma mensagem que não cola com a realidade e com as dificuldades de milhões de portugueses", considerou Jaime Toga, membro da Comissão Política do Comité Central do PCP, falando aos jornalistas no Centro de Trabalho do Porto.
O dirigente comunista considerou também que a mensagem de Luís Montenegro "não augura nada de positivo, porque se não se identificam os problemas, não se é capaz de resolver os problemas como há necessidade de se fazer".
Governo fez "cedência retórica à extrema-direita"
Em nome do Livre falou o deputado Paulo Muacho, que acusou o Governo de ter feito uma "cedência retórica à extrema-direita" e de falhar no combate aos problemas do Serviço Nacional de Saúde, uma das promessas principais da campanha eleitoral.
"Damos uma nota muito negativa e temos muitas reservas em relação ao trabalho do Governo", afirmou.
Paulo Muacho criticou também a tentativa de aproveitamento político, por parte de Luís Montenegro, em relação ao "aumento extraordinário de pensões", que "foi feito contra a vontade do Governo", que não tem maioria na Assembleia da República.
Discurso "muito afastado das necessidades do país"
À direita fez-se ouvir o presidente da Iniciativa Liberal, que acusou o primeiro-ministro de ter feito "um discurso muito afastado das necessidades do país" e apontou a Saúde, Educação e Habitação como "falhanços claros" do Governo.
"O país precisa de mudança a sério e este discurso, que é um discurso que parece contente, enfim, com aquilo que foi fazendo, é um discurso muito afastado das necessidades do país, é um discurso muito afastado da vida dos portugueses", afirmou Rui Rocha, no Porto.
Para o liberal, Luís Montenegro falou um país que "é um oásis" mas "é um oásis em que só vive o primeiro-ministro e o Governo da Aliança Democrática, os portugueses vivem em condições que não são aquelas que constam do oásis que o primeiro-ministro quer apresentar".
Discurso "de esperança no futuro próximo"
O PSD pronunciou-se pela voz de Carlos Coelho. O vice-presidente do partido afirmou que Portugal tem um "património de imagem de segurança" no exterior que deve ser preservado e rejeitou que o partido decida operações policiais.
Carlos Coelho elogiou o discurso de Luís Montenegro e destacou o seu discurso "de esperança no futuro próximo".
"Portugal tem relativamente a outros países um património de imagem de segurança que nós temos que preservar, temos que respeitar e temos que manter", afirmou Carlos Coelho. "Portugal é um Estado de direito democrático. Não são os partidos e nem sequer é o governo que decide quando são necessárias operações de natureza policial, são as forças de segurança face às análises de risco e aos dados que têm", disse ainda.
Contudo, para Carlos Coelho, "os partidos da oposição fazem sempre uma crítica que toca o 8 e o 80" em relação ao governo: "ou criticam tudo ou dizem que está a seguir a sua política".
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