Os campeonatos mundiais de ski arrancam esta quarta-feira, em Trondheim, naquela que é uma das últimas provas da Taça do Mundo de saltos de esqui e que pode trazer surpresas numa pista norueguesa.
Quem o diz é Martin Schmitt, uma das referências mais fortes na modalidade de inverno. Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, Schmitt fez uma antevisão do que a prova poderá trazer à luta pelo Globo de Cristal.
O antigo saltador, que foi campeão do mundo em 1998/99 e 1999/00 e campeão olímpico em 2002, fez ainda uma retrospetiva aos melhores momentos da carreira, assim como da evolução da modalidade e as dificuldades que esta traz.
Martin Schmitt é agora comentador especialista na Eurosport © Eurosport
Os saltos de esqui não são o desporto mais comum na Alemanha. O que o fez escolher e apaixonar-se por esta modalidade?
Enquanto miúdo pratiquei vários desportos, não a nível competitivo, mas experimentei muitas coisas. Tenho um irmão mais velho e nós éramos muito entusiastas pelos desportos de inverno. Eu também jogava futebol no verão, mas no inverno ficávamos muito interessados no ski alpino e nos saltos de ski. Víamos todos os mundiais na televisão e até tínhamos uma pequena pista, que construímos numa colina no nosso quintal, com não mais de seis metros, onde fazíamos as nossas competições um contra o outro e com amigos. Esse foi o primeiro contacto real com os saltos de ski e, depois, o meu irmão perguntou ao meu pai se podia saltar numa pista ‘a sério’ e acabou por levá-lo um dia e apaixonou-se de imediato. Um ano depois, também eu estava a começar a minha jornada no desporto.
Os seus pais ficaram com medo de começar a saltar ou tinham confiança?
A minha mãe estava um pouco receosa no início, mas os meus pais sempre me apoiaram, mas claro que, quando se chega a casa com os primeiros ossos partidos, as coisas mudaram um bocadinho [risos]. Mas sempre nos apoiaram sem colocar qualquer tipo de pressão.
O Torneio dos Quatro Trampolins é uma das competições mais difíceis de conquistar. O que tem de tão particular?
É uma competição com quatro eventos, muitas coisas podem mudar, estamos muitas vezes dependentes das condições climáticas, da nossa condição física, temos de nos manter saudáveis durante esses 10 dias. É muito intenso, há muita pressão porque está tudo muito atento a essa competição, tudo pode acontecer e ser alterado até ao último evento e isso é muito desafiante, mas também muito entusiasmante. No fim, este desporto é sempre um jogo mental contigo mesmo e tens de aguentar esta mistura de sentimentos.
Em março de 1999, Planica foi palco do seu recorde mundial, com um salto de 214.5 metros. Qual foi o sentimento durante o salto e quando aterrou? Estava a par de que tinha batido o recorde?
Foi uma competição entusiasmante, num fim de semana difícil, porque estava a lutar pela Taça do Mundo e no primeiro dia saltei uma distância suficiente para o recorde mundial, mas sofri uma queda na primeira ronda e perdi a Taça do Mundo por causa disso. Na segunda ronda estava muito motivado porque sabia que havia uma possibilidade [de bater o recorde], acho que estava a tentar esticar o salto em demasia durante o voo e perdi um pouco o equilíbrio e acho que foi uma situação muito perigosa. No fim, foi o suficiente para conseguir o recorde mundial, mas no momento só estava a tentar aterrar em condições, que era o objetivo. Mas foi muito bom, apesar de ter perdido o recorde um ou dois dias depois, mas pelo menos estou na lista [risos], que é muito bom e foi um sentimento incrível ter saltado uma distância que nunca ninguém tinha alcançado.
Neste momento, o recorde é um pouco maior, com 253.5 metros de distância, saltados por Stefan Kraft em Vikersund. O que esta pista tem de particular para ter os últimos seis recordes mundiais?
Vikersund é provavelmente a pista onde consegues saltar as maiores distâncias, a trajetória da rampa não é muito alta e estás muito próximo da pista. Consegues saltar grandes distâncias muito facilmente, no ponto de vista da aterragem, Planica tem o mesmo tamanho, mas é mais complicada na forma de aterrar devido à trajetória.
Acredita que este recorde será alguma vez batido?
Pode ser que no futuro sejam feitas novas pistas ou alterações nas existentes e aconteçam novos recordes mundiais. O Ryoyu Kabayashi fez um salto numa pista temporária na Islândia com 291 metros de distância, por isso é possível saltar mais longe mas para isso tinham de voltar a construir a pista e um dia será certamente possível saltar acima dos 300 metros.
Como vê a evolução da modalidade?
A evolução está sempre a acontecer, o desporto dos saltos de ski está sempre a progredir no que toca a infraestruturas. Neste momento, o desporto está muito volátil, sendo que uma mudança nas técnicas usadas podem alterar os resultados obtidos numa escala enorme.
Os Mundiais de Esqui começam esta quarta-feira. Quem tem como favoritos para a competição dos saltos?
Há muitos saltadores capazes de vencer e de sonhar chegar ao mais alto nível, pelo que é difícil prever o próximo campeão do mundo em Trondheim, vamos ver. Acho que os austríacos, claro, estão na melhor posição para conseguirem o título, mas o Ryoyu Kabayashi parece estar na sua melhor forma mesmo a tempo, visto que ganhou os últimos dois eventos no Japão, por isso há vários candidatos. No entanto, acredito que os mais favoritos serão a Áustria, com três saltadores [Daniel Tschofenig, Jan Horl e Stefan Kraft], os noruegueses, que vão saltar em casa e o Ryoyu Kabayashi. É um evento principal, há sempre espaço para surpresas que tornem as coisas interessantes, por isso estou curioso pelo Campeonato do Mundo para ver quem poderá ser a ‘ovelha negra’ em Trondheim.
Com 47 anos, ainda se podia tornar no vencedor mais velho de sempre de uma prova do circuito da Taça do Mundo. Acredita que estaria à altura desse desafio?
[Risos] Acho que devia. Vou preparar os meus esquis e meter-me em forma. Mas diverti-me muito no meu desporto e acho que é melhor para todos se ficar de fora.