Alex Saab, que foi detido em 2020 com um mandado dos Estados Unidos por lavagem de dinheiro, foi libertado na passada quarta-feira, 13 de dezembro, e, em troca, as autoridades venezuelanas libertarão alguns dos pelo menos dez cidadãos norte-americanos que se encontram presos na Venezuela, segundo uma fonte próxima do caso que pediu o anonimato.
A Casa Branca escusou-se a comentar.
Na sexta-feira e novamente na segunda-feira, dois documentos foram arquivados e selados no processo criminal há muito tempo pendente no tribunal federal de Miami, no Estado da Florida, o que indica a existência de um acordo em andamento nos bastidores.
Os Estados Unidos há muito que acusam Saab de ser "o homem das entregas" de Maduro, pelo que a sua libertação será vista como uma grande concessão a um líder autoritário que é, ele mesmo, alvo de uma recompensa de 15 milhões de dólares (13,6 milhões de euros) para quem o levar para Nova Iorque para enfrentar acusações judiciais de tráfico de droga.
O acordo poderá também irritar a oposição venezuelana, que ultimamente tem criticado a Casa Branca por ficar de braços cruzados enquanto o líder da nação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) repetidamente contorna o Governo norte-americano, depois de a campanha de pressão máxima do executivo de Donald Trump (2017-2021) ter falhado em derrubá-lo.
Em outubro, a Casa Branca aliviou as sanções à indústria petrolífera venezuelana, prometendo reimpô-las se Maduro não cumprisse até 30 de novembro a promessa de organizar eleições livres e transparentes no próximo ano.
Esse prazo expirou e, até agora, Maduro não reverteu a medida que impede a sua principal adversária, María Corina Machado, de se candidatar à Presidência da República.
Entre os norte-americanos atrás das grades na Venezuela estão dois ex-membros das forças especiais do Exército dos Estados Unidos, Luke Denman e Airan Berry, que estiveram envolvidos numa tentativa de depor Maduro em 2019.
Também detidos estão Eyvin Hernández, Jerrel Kenemore e Joseph Cristella, acusados de entrar ilegalmente no país procedentes da Colômbia. Mais recentemente, a Venezuela prendeu Savoi Wright, um empresário de 38 anos da Califórnia.
Saab, de 51 anos, foi retirado de um jato privado durante uma escala para abastecimento de combustível em Cabo Verde, a caminho do Irão, para onde foi enviado para negociar acordos petrolíferos em nome do Governo de Maduro.
Foi acusado de conspiração para cometer lavagem de dinheiro ligada a um esquema de subornos que alegadamente desviou 350 milhões de dólares (318 milhões de euros) através de contratos estatais para a construção de habitação económica para o Governo da Venezuela.
Segundo o executivo de Maduro, Saab ia ao Irão para comprar alimentos e material médico quando foi detido em Cabo Verde.
Ele já tinha sido anteriormente sancionado pelo Departamento do Tesouro norte-americano por alegadamente gerir um esquema que incluía o círculo íntimo de Maduro e que roubou centenas de milhões de dólares em contratos de importação de alimentos numa época de fome generalizada no país latino-americano, principalmente devido à escassez de bens alimentares.
Uma década volvida desde o início da crise, as mercearias e supermercados estão agora abastecidos, mas poucos venezuelanos têm dinheiro suficiente para comprar comida: o salário mínimo mensal é de cerca de 3,60 dólares (3,28 euros), o que chega apenas para comprar um garrafão de 3,7 litros de água.
O Governo Trump apresentou Saab como um troféu, depois de gastar milhões de dólares a perseguir o empresário nascido na Colômbia. A certa altura, chegou mesmo a enviar um navio de guerra da Marinha norte-americana para a costa da África Ocidental como aviso aos venezuelanos.
O executivo de Maduro argumentou que Saab é um diplomata venezuelano, com direito a imunidade contra processos criminais, nos termos do direito internacional.
Mas os seus advogados de defesa afirmaram no ano passado, numa audiência à porta fechada antes da sua detenção, que Saab tinha estado secretamente em contacto com a Agência de Combate ao Tráfico de Droga dos Estados Unidos (DEA), a ajudar as autoridades a desvendar a corrupção no círculo próximo do Presidente venezuelano e dispondo-se a abdicar de milhões de dólares em receitas ilegais provenientes de contratos estatais corruptos.
Leia Também: Oposição pede um Natal sem presos políticos na Venezuela