O nome de Carey, de 89 anos e que em dezembro abandonou o sacerdócio após a divulgação de um outro caso de abusos sexuais na igreja, destaca-se entre os de dez clérigos divulgados pela equipa de proteção e salvaguarda da Igreja de Inglaterra, que adiantou que "tentará iniciar procedimentos disciplinares" face aos factos apurados.
Cerca de outros 30 membros da Igreja de Inglaterra, a igreja-mãe da Comunhão Anglicana, não enfrentarão medidas disciplinares devido a "provas insuficientes", afirmou a equipa.
Alexander Kubeyinje, diretor nacional de proteção da Igreja de Inglaterra, disse hoje que a instituição está "verdadeiramente arrependida" pelos danos causados aos sobreviventes e às vítimas de abusos.
"Sabemos que isto nunca irá desfazer o dano causado, mas a Igreja está empenhada em levar muito a sério a sua resposta às conclusões do inquérito, bem como em responder às suas recomendações", disse.
Um relatório independente publicado pela igreja britânica em novembro concluiu que abusos em série cometidos por um voluntário em campos de férias cristãos eram conhecidos, mas foram ignorados por líderes da igreja.
Carey, segundo o documento, foi informado sobre graves abusos físicos e sexuais cometidos desde a década de 1970 pelo voluntário, o advogado John Smyth, e recebeu uma denúncia anterior sobre o assunto, o que o ex-líder da Igreja de Inglaterra nega.
O inquérito apurou ainda que Justin Welby, antigo líder espiritual da Comunhão Anglicana global e que se demitiu no ano passado, não contou à polícia o que sabia sobre as alegações contra Smyth.
Segundo o documento, Welby "deveria e poderia ter" denunciado os abusos às autoridades em 2013, quando tomou conhecimento dos mesmos.
Smyth, que terá atacado mais de 130 rapazes e homens ao longo de cinco décadas, morreu em 2018 na Cidade do Cabo, depois de ter vivido em vários países africanos e quando estava sob investigação policial.
Andrew Graystone, um defensor dos sobreviventes de abusos, criticou hoje o tempo que demorou para que fosse feita justiça.
"É chocante que tenha demorado tanto tempo para a igreja iniciar sequer o processo disciplinar", disse, citado pela AP.
"E por causa da forma como o processo disciplinar da igreja funciona, são grandes as hipóteses de os advogados da igreja decidirem que já passou muito tempo para que haja uma audiência justa", frisou.
Arcebispo de Cantuária entre 1991 e 2002, Carey deixou o sacerdócio em dezembro depois de uma investigação da BBC ter descoberto que permitiu que um padre que tinha sido banido por acusações de abuso sexual regressasse à igreja.
Segundo a estação, Carey concordou em permitir que um padre, David Tudor, voltasse a trabalhar na igreja, em 1994, depois de ter sido suspenso do ministério durante cinco anos por acusações de abusos a adolescentes.
Alguns documentos sugerem que Carey defendeu que Tudor arranjasse um emprego numa diocese, relatou a BBC.
A demissão de Carey ocorreu num momento em que outro clérigo sénior, que deveria assumir o comando temporário da Igreja de Inglaterra, enfrentou apelos para se demitir devido à forma como lidou com o caso de Tudor.
O arcebispo de York, Stephen Cottrell, terá permitido que Tudor permanecesse no seu posto, apesar de saber que tinha sido proibido pela igreja de estar sozinho com crianças e pagou uma indemnização a um dos seus acusadores.
Tudor foi afastado do ministério para sempre em outubro, depois de ter reconhecido que teve relações sexuais com duas adolescentes, de 15 e 16 anos, na década de 1980.
O Arcebispo de Cantuária é líder espiritual da Comunhão Anglicana global, que conta com 85 milhões de fiéis em 165 países.
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