Henrique Gouveia e Melo, ex-chefe do Estado-Maior da Armada e potencial candidato a Presidente da República, falava num almoço debate promovido pelo International Club of Portugal, num hotel de Lisboa.
Nas respostas a perguntas de cidadãos presentes nesse almoço, o almirante começou por abordar a questão do sistema de justiça. Sobre este tema, considerou que "a única tentação em que o poder judicial não pode cair é numa justiça de pelourinho", ou seja, "uma justiça mediatizada, porque isso corrói o próprio sentido de justiça".
Porém, mais do que sobre justiça, o almirante foi sobretudo confrontado com questões relativas sobre ao "comportamento da classe política".
Neste ponto, Gouveia e Melo lamentou que "se ande a discutir o comportamento do político A, do B, do C e parece que não interessa discutir quais são as opções políticas".
"Pelo contrário, enquanto cidadão, gostaria de poder optar entre o programa A, B ou C. Para o fazer, eu gostaria de ter propostas concretas", contrapôs.
Em relação ao atual clima político, o ex-chefe do Estado-Maior da Armada foi um pouco mais longe nas suas críticas, deixando mesmo advertências sobre a qualidade futura dos políticos.
"Vamos correr o risco de discutir se o fulano A, B ou C é mais imaculado ou menos imaculado do que o outro em vez de discutir o que cada um tem para nos oferecer enquanto governante? ", perguntou, antes de procurar realçar o caráter benéfico da experiência profissional anterior ao exercício de cargos políticos.
"A certa altura, ninguém pode fazer política, a não ser um quadro partidário que nunca fez mais nada, a não ser colar cartazes. Isso seria péssimo para o sistema político. É preciso ter cuidado e não exagerar. É importante que os nossos líderes tenham ética republicana, mas não andarmos à procura de tudo e mais alguma coisa, porque a certa altura podemos querer ficar com os anjos sem capacidade de governação", reforçou.
Depois, o almirante rejeitou que seja autoritário ou contra os partidos.
"Defendo os partidos, mas os partidos não são a pessoa. O partido é o conjunto de ideias que um grupo de pessoas defende. Se nós vamos fulanizar o partido, depois temos problemas", apontou, sem especificar uma situação em concreto.
Neste contexto, fez também questão de distinguir autoridade e autoritarismo e, a propósito de consensos, vida militar e sociedade civil. Gouveia e Melo reconheceu então que na vida militar "a ação prevalece sobre o consenso".
"Na vida militar, não há tempo para consensos. As situações são de tal maneira graves, complexas e urgentes que, se estivéssemos a adotar soluções por consenso, não teríamos uma única vitória. O que não significa que, mudando dessa vida, não perceba que o modelo da sociedade civil é um modelo totalmente distinto e que não esteja habituado, ou que não possa habituar, a viver num modelo diferente", sustentou.
Apesar das diferenças entre vida militar e civil, Gouveia e Melo acrescentou que na Marinha a maior parte das opções é tomada por consenso, "porque é muito difícil levar um grupo de homens forçados a fazer qualquer coisa".
"Uma coisa é estar numa aeronave e tomar as decisões. Outra coisa é estar num navio, que tem lá 200 homens e é muito mais difícil. Portanto, esses consensos, de alguma forma, se estabelecem, só que se estabelecem num sistema mais hierarquizado e mais disciplinado, mas com muita discussão interna", completou.
Leia Também: "Um dos valores básicos da liderança é a ética", diz Gouveia e Melo