"Vamos correr o risco de discutir se fulano A, B ou C é mais imaculado?"

 O almirante na reserva Gouveia e Melo defendeu hoje que na campanha das próximas eleições legislativas se deve discutir propostas e não se o político "A" é mais imaculado do que o adversário, e recusou ser antipartidos ou autoritário.

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© PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP via Getty Images

Lusa
27/03/2025 17:01 ‧ há 3 dias por Lusa

Política

Legislativas

Henrique Gouveia e Melo, ex-chefe do Estado-Maior da Armada e potencial candidato a Presidente da República, falava num almoço debate promovido pelo International Club of Portugal, num hotel de Lisboa.

 

Nas respostas a perguntas de cidadãos presentes nesse almoço, o almirante começou por abordar a questão do sistema de justiça. Sobre este tema, considerou que "a única tentação em que o poder judicial não pode cair é numa justiça de pelourinho", ou seja, "uma justiça mediatizada, porque isso corrói o próprio sentido de justiça".

Porém, mais do que sobre justiça, o almirante foi sobretudo confrontado com questões relativas sobre ao "comportamento da classe política".

Neste ponto, Gouveia e Melo lamentou que "se ande a discutir o comportamento do político A, do B, do C e parece que não interessa discutir quais são as opções políticas".

"Pelo contrário, enquanto cidadão, gostaria de poder optar entre o programa A, B ou C. Para o fazer, eu gostaria de ter propostas concretas", contrapôs.

Em relação ao atual clima político, o ex-chefe do Estado-Maior da Armada foi um pouco mais longe nas suas críticas, deixando mesmo advertências sobre a qualidade futura dos políticos.

"Vamos correr o risco de discutir se o fulano A, B ou C é mais imaculado ou menos imaculado do que o outro em vez de discutir o que cada um tem para nos oferecer enquanto governante? ", perguntou, antes de procurar realçar o caráter benéfico da experiência profissional anterior ao exercício de cargos políticos.

"A certa altura, ninguém pode fazer política, a não ser um quadro partidário que nunca fez mais nada, a não ser colar cartazes. Isso seria péssimo para o sistema político. É preciso ter cuidado e não exagerar. É importante que os nossos líderes tenham ética republicana, mas não andarmos à procura de tudo e mais alguma coisa, porque a certa altura podemos querer ficar com os anjos sem capacidade de governação", reforçou.

Depois, o almirante rejeitou que seja autoritário ou contra os partidos.

"Defendo os partidos, mas os partidos não são a pessoa. O partido é o conjunto de ideias que um grupo de pessoas defende. Se nós vamos fulanizar o partido, depois temos problemas", apontou, sem especificar uma situação em concreto.

Neste contexto, fez também questão de distinguir autoridade e autoritarismo e, a propósito de consensos, vida militar e sociedade civil. Gouveia e Melo reconheceu então que na vida militar "a ação prevalece sobre o consenso".

"Na vida militar, não há tempo para consensos. As situações são de tal maneira graves, complexas e urgentes que, se estivéssemos a adotar soluções por consenso, não teríamos uma única vitória. O que não significa que, mudando dessa vida, não perceba que o modelo da sociedade civil é um modelo totalmente distinto e que não esteja habituado, ou que não possa habituar, a viver num modelo diferente", sustentou.

Apesar das diferenças entre vida militar e civil, Gouveia e Melo acrescentou que na Marinha a maior parte das opções é tomada por consenso, "porque é muito difícil levar um grupo de homens forçados a fazer qualquer coisa".

"Uma coisa é estar numa aeronave e tomar as decisões. Outra coisa é estar num navio, que tem lá 200 homens e é muito mais difícil. Portanto, esses consensos, de alguma forma, se estabelecem, só que se estabelecem num sistema mais hierarquizado e mais disciplinado, mas com muita discussão interna", completou.

Leia Também: "Um dos valores básicos da liderança é a ética", diz Gouveia e Melo

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