Os projetos de Lei do Chega e do PSD e CDS-PP sobre as condições de acesso de cidadãos estrangeiros não residentes ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) foram aprovados esta quinta-feira com os votos a favor dos partidos proponentes.
Após o debate agendado pelo Chega sobre o chamado "turismo de saúde", as duas iniciativas tiveram a mesma votação na generalidade, sendo aprovadas com os votos a favor do PSD, CDS-PP e Chega e contra do PS, Iniciativa Liberal, BE, PCP e Livre.
O que Chega, PSD e CDS pretendem mudar?
Com esta proposta de lei, o Chega pretende alterar a Lei de Bases da Saúde de 2019 para limitar o acesso ao SNS a estrangeiros que não residam em Portugal, só lhes permitindo aceder aos cuidados de saúde públicos em casos de emergência ou mediante pagamento.
Também o projeto de lei apresentado por PSD e CDS-PP visa alterar a Lei de Bases da Saúde para travar a "utilização abusiva" do Serviço Nacional de Saúde por estrangeiros não residentes em Portugal, exigindo documentação extra a estes cidadãos.
A proposta refere que não pode ser ignorado o fenómeno da utilização do SNS por parte de estrangeiros não residentes e que se deslocam ao país com o propósito de acederem gratuitamente a cuidados e serviços de saúde ou a tratamentos médicos assegurados aos utentes do SNS.
Um outro projeto de lei do Chega, para alterar o regime de isenção das taxas moderadoras, foi também aprovado com a mesma votação.
Foram ainda aprovados dois projetos de resolução - sem força de lei -, um do PS, a recomendar ao Governo a monitorização do acesso de estrangeiros ao SNS, e outro da IL, que recomenda que sejam cobrados aos cidadãos estrangeiros os seus custos no SNS antes da prestação dos cuidados de saúde não-urgentes ou que, em alternativa, possam usar um seguro de saúde ou acordo internacional.
"Isso não é humanidade". O que disseram os partidos?
O Chega propôs-se regular o acesso de estrangeiros ao Serviço Nacional de Saúde e combater as "portas escancaradas", com o PSD a manifestar dúvidas de constitucionalidade e o PS a criticar um discurso "profundamente demagógico".
André Ventura considerou haver pessoas que vêm a Portugal "com o único propósito de defraudar a lei e ter os filhos em Portugal" e que nas redes sociais existem publicações sobre "como beneficiar do sistema de saúde português, como enganar o sistema de saúde português".
Em resposta a Ventura, durante o debate em que as propostas foram discutidas, a deputada socialista Jamila Madeira explicou que o PS é contra mudanças no acesso de cidadãos estrangeiros ao Serviço Nacional de Saúde sobretudo por temer futuras situações que coloquem em risco a saúde pública.
Para a socialista, avançar com as mudanças propostas pela Direita "não é humanidade".
Na intervenção seguinte, Miguel Guimarães, deputado do PSD e ex-bastonário da Ordem dos Médicos, esclareceu que a proposta da Aliança Democrática (AD) para alterar a Lei de Bases da Saúde e travar a "utilização abusiva" do Serviço Nacional de Saúde (SNS) por estrangeiros "não se aplica a imigrantes legais", que tenham residência regular em Portugal, e não se pode confundir com o "chamado turismo de saúde", em que os estrangeiros pagam pelos "cuidados que vão receber".
O social-democrata acusou também os governos do PS de terem imposto, há cinco anos, uma Lei de Bases da Saúde que prometia, "de forma irresponsável", acesso gratuito do SNS a todos os cidadãos do mundo.
E referiu alguns exemplos de países europeus "onde existem limitações aos respetivos serviços de saúde por parte de estrangeiros não residentes ou em situação irregular", onde incluiu a Alemanha, Áustria, Bulgária, Chipre, Bélgica, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Itália, Luxemburgo, Reino Unido e República Checa.
Por sua vez, a coordenadora do BE acusou o PSD de "atirar gasolina" para as perceções sem factos, alegando que os estrangeiros não residentes em Portugal e não cobertos por seguros representaram 0,7% dos atendimentos nas urgências em 2023.
Segundo Mariana Mortágua, o PSD "fez tudo ao contrário" neste processo e conseguiu um 'hat-trick' de irresponsabilidade".
O debate em que estes projetos de Lei do Chega, do PSD e CDS-PP foram aprovados durou cerca de duas horas e não teve participação do Governo.
[Notícia atualizada às 19h22]
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